O Contador de Histórias por Jú Colombo

Oiê!! Conforme prometido eu voltei para contar pra vocês como foi a minha conversa com a Jú Colombo a respeito do filme O Contador de Histórias. Semana passada eu escrevi as minhas impressões sobre o filme, se você não leu, clique aqui.  Primeiro eu preciso dizer que a Jú foi super generosa em me ceder essa entrevista,  conversamos via whatsapp e a sua fala é tão cheia de amor e entusiasmo pelo trabalho que me fez ouvir seus áudios com a sensação que estávamos sentadas na mesma sala – Obrigada, Jú, querida!

E por falar em áudio, tem uma surpresinha no final desse post 🙂

  1. Como foi o trabalho de preparação para o seu papel em O Contador de Histórias?

JÚ: Tudo começou de uma forma muito empírica, eu sou budista e estava em casa fazendo as minhas orações e refletindo sobre a minha vontade de fazer cinema, eu entendia que aquele era um momento que eu deveria me lançar mais, eu já havia tido outras participações em Domésticas com o Fernando Meireles, mas era uma participação menor, na TV eu já tinha uma trajetória rica e queria me lançar no cinema. Quando eu terminei minha oração, enquanto eu fazia algumas coisas em casa o Luiz Villaça me ligou, eu já o conhecia da época do Retrato Falado… Ele me contou que estava rodando um filme pela Warner, que se passava em Belo Horizonte e ele estava com uma intuição e por isso queria conversar comigo. O Luiz me contou que o filme já estava sendo rodado, que tinha uma atriz mineira que já estava aprovada para fazer a mãe do Roberto Carlos, mas mesmo assim ele queria conversar a respeito do papel porque ele intuía que aquele papel era pra mim. Finalizamos a conversa e eu fiquei aguardando que ele me ligasse. Durante o tempo de espera eu fiquei exercitando sobre qual era a minha percepção sobre aquele personagem, as informações que eu tinha era que ela era uma mãe de nove filhos, pobre, que entendia que por causa das dificuldades financeiras estava difícil criar o filho caçula, e ao assistir uma propaganda da Febem percebe que ali poderia ter um bom futuro para o seu filho. Essas eram as principais informações: uma mulher pobre, sozinha, guerreira, com muitos filhos, ingênua… Depois de um tempo o Luiz me liga e me conta que estava conversando com a Laís Correia, preparadora do elenco infantil sobre a possibilidade de eu fazer esse papel e nessa conversa ele descobre que eu sou muito amiga da Laís o que deu a ele ainda mais certeza de que eu deveria fazer esse personagem. Durante as filmagens o Luiz me dava algumas pequenas indicações, eu sou uma pessoa de expressão muito forte, muito marcada, eu brinco que eu sou quase caricata e muito da comédia, por isso ele me dava dicas técnicas sobre eu amortecer a linha dos olhos e das sobrancelhas pra trazer a marca de dor e sofrimento da personagem, eu tinha uma fala muito recuada, quase não se entendia por ela ser uma mulher muito tímida… O Luiz foi muito generoso de aceitar o que eu estava propondo pra construção dessa mãe.

filme brasileiro
Jú Colombo, Denise Fraga e Roberto Carlos

2. O Contador de Histórias tem personagens femininos bem marcantes, como você analisa o papel da mulher num filme tão emocionante e importante socialmente?

: Como diretora da Febem nós temos uma mulher que mais se parece com um homem no sentido assertivo, autoritário, uma coisa muito distanciada do sentimento, algo que pertence mais ao universo masculino, uma pessoa prática, não tem muita relação emocional com aquilo tudo e a gente até entende o porque, pois alguém que é tomado pelo emocional não da conta de liderar essa instituição, mas ao mesmo tempo, conduz aquela estrutura muito desumana, de uma forma muito normal, quase cotidiana, é um lado da mulher quase cruel, lidar com vidas daquela forma tão distanciada é realmente o pouco que conhecemos do que foi a Febem… Minha mãe deu aula muitos anos num orfanato e eu tive algumas idas com ela e me lembro de ser algo muito desumano, então acredito que o personagem feminino nesse lugar coopera para a desumanização. Por outro lado temos a figura da socióloga que é absolutamente passional, se envolve de uma forma absurda com o Roberto Carlos e passa a ter com ele uma relação familiar. O que foi sorte do garoto que teve então seu destino traçado, diferente de tantos outros meninos dali de dentro. Então nós temos ali o espelhamento de posições do universo feminino muito contundentes e que eu penso ser tudo pertinente, tudo verdadeiro no sentido das várias faces existentes como mulher, o nosso posicionamento no mundo que abarca tudo isso. Me encanta muito a esperança da mãe do Roberto, ela coloca o menino na Febem com a esperança de que ele seja salvo, que ele progrida na vida e realmente de alguma forma isso acontece, não da forma esperada por ela. O Roberto Carlos um dia me contou que não deixou a mãe dele saber tudo que ele passou, então ela faleceu entendendo que tinha dado certo o objetivo de vida dela em relação ao filho.

3. Como foi trabalhar com as crianças do filme?

JÚ: Trabalhar a espontaneidade da criança diante da câmera, pois não é aquela criança diante da tela, e sim o personagem, é algo difícil. No filme tem o Roberto Carlos em várias fases e uma das mais importantes é ele criança, todos eram mineiros e apenas o que faz o Roberto Carlos na última fase, Cleiton Santos, já adulto era o que tinha alguma experiência no mundo artístico, num grupo de teatro, os outros dois não tinham nenhuma experiência com a linguagem artística, mas eles foram todos muito bem. O menino que fez a primeira fase, Marco Antônio Ribeiro, que chamávamos carinhosamente de Bolinha, era uma criança muito pequena, ao mesmo tempo que ele tinha muita disponibilidade corporal, emocional pra se lançar naquele universo, que pra ele era muito divertido, muito diferente do cotidiano dele, também tinham momentos que se cansava, aquela coisa de criança onde o interesse é curto e rápido das coisas, né?! E o cinema é a arte da espera, tudo é demorado, repetitivo… Então por isso tinham horas que se não fosse o trabalho primoroso da Laís, direcionando, estimulando, brincando – ela era uma mãe pra eles e o Luiz o pai, ele andava com o Bolinha pelo colo no set de filmagem – era uma imagem linda, porque era um ambiente que foi criado de uma forma bem familiar pra poder dar conta dessa energia e disciplina do menino, porque em certos momentos era uma coisa muito dura, algumas cenas foram tiradas porque o Luiz previa que ia dar um trabalho maior que o ganho na qualidade do projeto final, pra evitar sacrificar o ator. O menino que fez o Roberto Carlos na idade mediana, Paulinho Mendes, é de uma performance incrível, ele inclusive ganhou uma bolsa de teatro, foi algo muito legal e merecida que aconteceu porque ele fez um trabalho primoroso.

filme brasileiro

4. Qual cena do seu personagem mais te tocou?

JÚ: Por conta da minha vontade de fazer cinema todo o processo foi incrível, é algo difícil de pontuar, porque esse personagem foi um presente que eu ganhei da vida, das mãos do Luiz, era alguém importante na trama toda, tinha um arco muito forte a trajetória do personagem, mas eu penso que se tivesse que escolher seriam dois momentos: o primeiro quando essa mãe deixa o filho na Febem. Eu sou mãe de três filhos: Gabriel, Alexandre e Lucas e jamais admito a possibilidade de me separar deles, uma coisa é se distanciar deles para terem autonomia na vida, outra é por passar necessidade, pra mim isso é próximo da morte, então a cena que ela deixa o filho na Febem, inclusive foi uma cena muito difícil de fazer por envolver muito sofrimento e a outra é quando ele (Roberto Carlos) volta e a mãe pergunta pro filho o que ele tinha se tornado na vida, ela precisava ouvir que deu certo, que todo sofrimento e sacrifício dela resultou em valor e ele conta que se tornou educador e ali ela entende que ela pode descansar em paz, são dois momentos antagônicos e absolutamente viscerais.

Warner Bros

5. Você tem alguma história marcante ou engraçada de bastidores do filme para nos contar?

** Gente, a Jú Colombo, como eu já disse acima foi super querida nessa entrevista e eu transcrevi pra vocês tudo que ela foi me contando, mas essa parte  dos bastidores eu achei que tinha ficado vaga, não tinha conseguido inserir nas palavras todo humor, amor e emoção que a voz dela imprime, então resolvi postar o áudio na íntegra dessa parte da conversa – duvido que você não vá sorrir durante a narração dela, hehehe – Ah, estou até pensando em fazer um resumão  do áudio dessa conversa com ela pra vocês se emocionarem com as outras respostas também. Dá o play!!! 

Se você não assistiu esse filme aproveita o final de semana e assista e não esqueça de me contar como você foi tocada por ele.

Até!!!

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7 comentários em “O Contador de Histórias por Jú Colombo”

  1. Excelente, obrigada por compartilhar essa experiência fantástica conosco!!! Preciso assistir esses filme.

  2. ana paula caetano

    Eu assisti e amei emocionante do início ao fim me surpreendi COM O FINAL UM REALISMO INCRIVEL… Ju um grande beijo no coração amei te conhecer pessoalmente

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